quarta-feira, dezembro 06, 2006

O “poeta-interior”: a pré-lição de Josué*

Preso entre poeira e montanhas (quase as últimas de Minas Gerais) nasce oficialmente o poeta Josué Borges de Araújo Godinho em Presidente Olegário, cidade distante 428Km de Belo Horizonte. Nesse local também aporta o Cometa Itabirano/Belorizontino no dia 08 de Julho de 2006. Esta matéria é necessária na medida em que na anterior tratamos do “desaparecimento” dos jovens poetas de Minas Gerais nas Zonas de Invenção Poesia &, de Belo Horizonte.
Propomos, assim, ler um pouco a dinâmica das coisas que se dizem poéticas à luz do dia-a-dia e vice-versa. As pessoas já acham estranho a proposta do “fim da poesia” quando explicada minuciosamente, enquanto um novo começo. O melhor método encontrado acaba sendo fazer o contrário: abordar o “fim da poesia” com a introdução do dia-a-dia em seu meio e, assim, caracterizar o seu “dissolvimento” ao se assemelhar à um cotidiano antes, aparentemente, órfão dela. Ao final, qualquer clichê poético torna-se cotidiano. E, no mínimo, qualquer cotidiano é um clichê poético.
A viagem para Presidente Olegário, ou P.O. para os íntimos moradores, é longa. Dura uma noite de quem parte da Belo Horizonte. Chega-se em Patos de Minas e ruma-se para PO. Cidade pequena localizada em um plano sobre uma montanha. Também com seus montinhos é simpática, acolhedora, poética. Para uns que ficam pode ser uma prisão. Lugar onde todos sabem e dão notícias de todos como as curtas cidades mineiras são. As imagens (fotos, descrições, etc.) do lugar apontam uma vontade para o crescimento.
Uma vez que a visita à cidade tinha como motivo o lançamento do primeiro livro do poeta, imaginou-se como isso seria possível dentro de uma “Festa da Produção” local. A imagem se construía com animais sendo submetidos em rodeios estúpidos, calças “tora-bago”, “maria-pretêras” e tudo o mais que os enfeitam. Como é possível acontecer um lançamento de poesia ali? E aconteceu. O dia do lançamento foi um dia de festa no cotidiano daquelas pessoas. Com todo tipo de pessoas, aquele cotidiano se extravasou com os poemas de Josué e o seu movimento poético. O dia-a-dia no poema. A sua poesia retirada do dia-a-dia. A poesia se dissolve e foi dissolvida.
Não especificamente arquitetado, o poeta contemporâneo revela seu texto e seu conteúdo em um jorro de explícito desejo de vida e não de se separar dela. Ele está nela. Seus poemas em outras línguas dissolvem a vontade de se aproximar das várias realidades lingüísticas e não de separá-las dos leitores de um português apenas. O poeta contemporâneo é também um “poeta interior” que se diz em seu poema mais do que no dia-a-dia se diz. É ali, no cotidiano e no poema, que ele se vende mais. O poeta quer se libertar, mas está ali, está preso. Sua poesia pode demonstrar isso claramente.
Nesse exemplo, podemos extrair que o poeta dito “da capital” deve aproveitar melhor o espaço e não apenas se lançar nele com um livro, sua proposta. O poeta de uma Belo Horizonte miúda, onde todos se conhecem, deve se conhecer e conhecer aos outros poetas, assim como o faz aquele do interior que se volta ávido por uma BH de poesia fragmentada.
O poeta de Belo Horizonte deve dizer aos outros o seu dia. Ser o dia. Essa é a pré-lição natural de Josué. Esse é o primeiro modelo do fim de uma poesia separada do dia. Simplicidade replicada do dia. O “poeta interior” manifesta os clichês junto às rimas pobres e seus enfeites possíveis. Artifícios corroboram a necessidade da forma ou a falta dela no poema. A dedicatória constante é sinal de um link entre a poesia e o mundo do poeta. O livro lançado, repleto de poemas com esses traços, é reflexo da festa que ali acontecia. Fotografou-se a fotografia. A responsabilidade do poeta contemporâneo cresceu, fica maior a cada segundo. Ele segura a arma com a qual está se matando. Ele a lê e não mais a decora. Ele a vive e não mais a provoca. Ele não esnoba com a poesia. Ela é esnobe. A poesia deve ser realmente de todos e todas.
Tudo isso para dizer que os poetas de Belo Horizonte devem se ver. Também devem ver o seu interior. Ver o interior de Minas e seus poetas talvez mais do que o inverso como vem acontecendo. Isso é dito, pois os do interior conseguem ver mais o dia e a noite em sua poesia do que o contrário.
Pelo que se lê atualmente nas preocupações dos poetas com as formas visuais do poema, com o lúdico-poético, e com a poesia acima do poema, pode-se dizer que o peso da poesia que se pratica hoje, no interior e nas capitais, está na capacidade de se tecer provocações em sua sintaxe carregada de conectivos. Pensa-se nesses enquanto gramaticais ou fazendo esse papel.
A partir desses valores contemporâneos, pode-se dizer que Josué ilustra essa poesia muito bem.
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*Publicado originalmente no Jornal O Cometa em Julho/2006

segunda-feira, novembro 27, 2006

Essa notícia você não vê na TV: De Oaxaca para o Mundo


Não apenas pela internet, mas quase sentindo no coração, surge a comuna de Oaxaca, no México. Não é mentira, mas pode tornar-se se comitês não forem criados.

Esta não é uma notícia que se vê na TeVê.

Dessa forma, é importante perceber algumas fontes com muita atenção: 1) www.comiteoaxacafortal.blogspot.com e 2) http://www.oaxacavive.revolt.org. Tendo acesso à esses dois endereços você estará apto a ler o mundo de fato.

E como uma imagem vale mais que mil palavras, e meu objetivo é mesmo a desconexão das idéias, veja ao lado uma desideologizada imagem da Sétima Megamarcha com pessoas como quaisquer outras, mais conhecidos como "nós".

Viu? Ainda há vida inteligente no planeta. Pessoas que não seguem os bolchevismos de qualquer espécie, ou outro "ismo" qualquer, e que são bem capazes de pensar por si próprias, pois o trabalho - e a hierarquia nele e fora dele - vai além das palavras.

O grito liberta! E ao saber que ler o mundo é o grande mistério da vida, posso felizmente dizer que descobri um dos caminhos dessa mesma vida sem mistérios e de confortos básicos. Seguir com as marchas, pequenas, médias, grandes e ainda as "megas", é o melhor a se fazer no gritar e mudar as coisas do mundo. Longe do ar condicionado que apenas condiciona alguns poucos na exclusão de muitos condicionados em outros moldes, modos e modelos.

O que se diz é o que se faz. Pense nos objetivos dessa desconexão.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Profecias diárias em contraponto



Disseram-me, certa vez, que os dias anteriores ditam os movimentos dos dias posteriores. Dos olhares e dos desejos pude notar três paisagens que no fundo se assemelham. A primeira, diria o mais desatento, se vincula ao olhar vago pela Belo Horizonte. De anormal não há nada. Seu ponto de partida é o Aglomerado do Taquaril, na Zona Leste de Belo Horizonte. Um belo lugar que proporciona um belo olhar. Um blefe. Possivelmente é o calo nos pés dos especuladores imobiliários, uma vez que sua vista e localização se parece com aquela do Mangabeiras.

O outro olhar
é ainda mais denso. A bela vista dos Profetas do Aleijadinho pelas costas, pela lateral da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas (MG). O olhar lateral rememora aqueles históricos moradores que, muito provavelmente, não assistiam a missa, mas assistiam as outras pessoas que dela saiam. Seus olhares curiosos fingiam uma "não curiosidade". Sua aparência simulada a descoberta de algo novo no outro. Antes, filhos de uma elite que faziam footing em domingos religiosos. O olhar não era tão displicente quanto poderia parecer.

Mais um olhar se soma aos outros no domingo p
ós 7 de setembro deste ano. A imagem revelada é a de um ato que cita a noção histórica de barricada, muito difundida e assimilada pelo movimento operário europeu, principalmente aquele de orientação anarquista. A descoberta da barricada lembra resistência. O fogo lembra destruição, mas também renascimento. A reinvidicação desse dia, ali na Br040 lotada de famílias voltando de seu feriado prolongado era o esgoto prometido pela Prefeitura local sob a imagem da COPASA. O que restou foi fumaça e a vitória conquistada pela ação empreendida. No meu olhar a ação já foi o bastante.

Da in
ércia até a ação dessas três imagens vemos o movimento de um olhar que tece a realidade de um discurso. Podendo ser aparentemente estático, as imagens se moldam com os comentários atingindo aquele que lê de algum modo. Superficialmente ou profundamente, a reflexão da leitura e seu consequente entendimento revela as posições a partir da posição exposta. A relação é crítica em vários sentidos, porém é inegável que tudo se deve ao acionamento dado pelo olhar.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Dos mistérios de ser Centopéia

Imaginando a grande impossibilidade de expressar quase que diariamente as vivências cotidianas, vi a necessidade de manifestar em um espaco público, quase aberto, algumas histórias e intervenções. Não sou capaz de ficar remoendo as mil faces, mil ações, mil atividades possíveis. Tambem não sou muito simpático as iniciativas blogantes, como aqueles/as que viram ou verão minhas palavras em outros espaços sabem ou saberão. O que existe como alternativa é tentar não esconder a liberdade que tenho não apenas em andar por vários lugares, como descrever coisas, fatos e casos dessas situações de enfim e de então.

Dos olhos, podem-se extrair mais do que lágrimas. O gosto que ficará, fica ou estará além da escrita será mostrado. Relatos serão feitos, vozes serão reproduzidas. Ruídos terão lugar.


As pernas da centopéia, chilopoda, são expostas ao mesmo tempo que escondidas. O texto não diz tudo. Algo se esconde e se revela. O dia torna-se visível a olho nu na mesma medida em que nada se vê. As imagens, a partir de agora, significarão mais do que o sopro de vontade a ser significada.

Por isso, esteja a vontade e seja bem-vindo/a a esse mundo. A vida começou.