terça-feira, julho 07, 2009
PARA SE FALAR DE MICHAEL JACKSON ou A MORTE DE MOONWALKER
PABLO GOBIRA
pablogobira@cafecombytes.com
Com Walter Benjamin (em suas “Teses sobre o conceito de história”, 1940) aprendemos que até o evento mais entranhado nas malhas da lógica dominante pode conter elementos de subversão e possibilidades de leituras diversas. A escolha de um caminho de reflexão não-linear, que se dá a partir de um elemento encadeador, é exemplar dessa prática. Essa ação crítica é necessária em um mundo no qual tudo é correnteza de informações e poucos peixes estão em piracema. Aqui se ensaiará brevemente uma possibilidade de leitura inspirada nessas idéias.
Perguntamos: o motivo para falar de Michael Jackson é sua morte? Sem um fato espetacular não há motivos? Não há necessidade de respostas para essas perguntas objetivas. Porém, deixo-as jogadas ao ar. Desse modo, usemos Michael para ressaltar uma de suas qualidades mais importantes nesse momento: mostrar que apenas o aparente e o novo nos atraem. Com o aparente e o novo vamos constituir um corpo crítico a partir de um dos movimentos de dança que ele popularizou: o famoso moonwalk.
Por qual outro motivo estamos TODOS curtindo, como uma irmandade universal, o eterno Michael Jackson? Sua morte é cultuada por uma humanidade necrófila nas telas e nos jornais: o culto de um fenômeno humano que já estava se apagando por sua efemeridade.
O seu apagamento não significa a afirmação de que não existirá sobrevida para Michael Jackson, mas sinaliza a ausência física de seu corpo sobre a superfície terrestre. Essa ausência física é suplantada pela presença de uma “aparência” provocada através de cicatrizes como o moonwalk. Afirma-se que o back-slide popularizado por Michael foi inventado pelo dançarino Bill Bailey. Esse passo teria aparecido em 1955 (vejam no curto vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=2VbPd2iu4bg) e, logicamente, não é executado como o faz o cantor pop recém falecido. A criação do passo e sua datação não é nosso grande problema. Cada performer é um autor e a execução de uma obra é única e carrega, assim, traços autorais.
Então, qual o motivo de eleger esse passo para esta leitura? Respondo que o passo de dança pode revelar alguns sinais que retiram Michael de um abismo midiático (e sua correnteza) e o insere em um fenômeno que representa características da contemporaneidade. Essas características põem em cheque a sociedade revelando algumas de suas angústias ou simplesmente a expõe.
O que seria esse passo então? Oficialmente o moonwalk foi executado em 1983 e ficou mundialmente conhecido nas performances da canção Billie Jean. Mesmo esse sendo o passo de dança mais famoso de Michael, comum a quase todos nós que estamos sendo bombardeados na tevê e jornais com fotos e trechos de vídeos em que o dançarino o executa, cabe descrevê-lo como vemos em diversos espaços da internet: “deve-se apoiar a ponta do pé direito contra o chão, mantendo o pé esquerdo em repouso, arraste o pé esquerdo alguns centímetros para trás e realiza-se o mesmo movimento invertendo os pés”.
Como elemento encadeador de reflexões dentre as produções de Michael Jackson, podemos pensar a idéia de se “andar na lua” como algo lento, escorregadio, um desafio a gravidade, como é visível para quem assiste ao bailarino. Porém, o que seria o “andar para trás” do back-slide? A essa pergunta juntam-se outras várias que retratam uma das expressões estéticas, assim como sua propagação, que se tornou marca desse cantor pop.
A performance é caracterizada pela efemeridade, ou seja, é passageira e nunca será igual a próxima execução assim como não é igual a anterior. Esse ato, além de situar a execução do passo de dança no tempo, também o retira dele na medida em que o moonwalk é lento e simula no executor outra temporalidade, como experimenta quem o assiste.
Apesar desses elementos que o tornam complexo e, às vezes, inverossímil, a execução do moonwalk provocou uma generalização de sua imitação, o que se deve à cultura que valoriza e propaga as encenações de um popstar. Poderíamos passar linhas e linhas especulando quais os motivos que o fazem ser adorado por crianças e adultos, mas a repetição de reflexões que apenas apontam possibilidades dessa recepção não nos levará a lugar algum.
É possível dizer que as representações do moonwalk e a sua imitação assinalam a proximidade entre o mundo contemporâneo e o que a dança representa. O passo é referência comum a muitas pessoas, seu efeito temporal desloca o executor daquele tempo progressivo, real, que é compartilhado por todos (executor e espectador) como um tempo que não tem pausa, cada vez mais rápido em um mundo em que “ninguém tem tempo pra nada”. A efemeridade da performance permite que as pessoas arrisquem subjetivamente sua execução. Cada vez que ele é feito se torna singular, único, o que se repete tornando-se mais especial com cada pessoa que o executa, aproximando-se ou não do propagador inicial, Michael Jackson, que já é uma segunda referência do back-slide, eliminando uma suposta originalidade a qual não se apega mais.
As possibilidades de execução e reprodução de um passo de dança nesse contexto da performance deve ser demarcado por ser elemento novo no mundo contemporâneo. É claro que danças coletivas, mimetização de celebridades, etc., não são novidade, como vemos a partir de Beatles, de Elvis, e outros. Porém, o moonwalk impressiona como um ato performático, enquanto um passo de dança que carrega sinais tão ligados ao contemporâneo e que o paralisam temporalmente. Sua existência mostra a incorporação da multiplicidade como elemento interno à própria lógica da indústria fonográfica que se emaranha enquanto pop nas artes performáticas.
Se Giorgio Agamben (Profanações, Editora Boitempo, 2007) está certo ao dizer que o autor é revelado subjetivamente pelo gesto, com o moonwalk de Michael Jackson revela-se não apenas o moonwalker, mas moonwalkers que mimetizam o bailarino indefinidamente. Pauta-se pela possibilidade de todos poderem criar e recriar o ato autoral. Todos se apropriam dos meios para criar e reproduzir, inclusive corporalmente, o executor-propagador. Constituiu-se na sociedade do mercado um jogo de espelhos permanente enquanto o primeiro executor do moonwalk, ou seja, seu autor/performer esteve vivo.
Como não poderia deixar de ser, uma vez que este texto se fez todo de questionamentos, terminamos com algumas questões: até que ponto estamos imitando Michael Jackson? Estamos realmente repetindo-o? Ou até que ponto criamos coletivamente uma pluralidade de criações que possuem potencial crítico e que representam uma época? Com a morte de Michael há chances para o efêmero e provisório gesto sobreviver?
Na lápide de mais um autor deixo aos leitores essas dúvidas.
segunda-feira, outubro 06, 2008
Maio de 1968 não foi culpa de herói
Do mesmo modo que o maio de 1968 parisiense não foi feito de heróis e mártires, ele também não foi apenas parisiense, ou europeu, ou ocidental. Esses adjetivos/categorias fazem parte de um emaranhado de fios que ajudam a sustentar a metafórica existência do capitalismo insistente e, praticamente (é preciso dizer: na prática não-humana), perpétuo. Não se tratou de linhas de pensamentos, correntes filosóficas, vanguardas revolucionárias, mas sobretudo de um impulso revolucionário anticapitalista.
A propriedade do “ser anticapitalista” significou, naquele instante, um salto de tigre, como o disse Benjamin (1892-1940). Esse salto de tigre-homem elevou os trabalhadores e os estudantes a condição de seres humanos que tensionaram suas musculaturas para agarrar o tempo e enxergar claramente as ruínas deixadas pelo progresso capitalista que os levavam a algum lugar nenhum.
O salto de tigre retomou as experiências práticas (sim, vou ser pleonástico, pois a ocasião dos 40 anos de 1968 necessita da repetição de que foi mais prático que ideológico e/ou separado do cotidiano) de diversos momentos históricos da sociedade capitalista. E atrevo-me a apontar alguns: a Comuna de Paris que, em 1871, entrou à força para a história provando a possibilidade de uma organização não capitalista na prática, constituída pela teoria-prática; a resistência dos trabalhadores e camponeses que se organizaram em conselhos (que são os Sovietes, em Russo) na Revolução Comunista Russa que se tornou Revolução Bolchevique Russa, ao ser tomada das mãos dos trabalhadores pela vanguarda ou partido Bolchevique; a resistência de Kronstadt (1921) ao “exército vermelho” trotskista e leninista que os queriam integrados à Revolução Bolchevique ou então mortos; e, é claro, o maio de 1968 francês.
O que une todos esses momentos? Unem-se na escolha por uma prática que foi cotidiana. Os trabalhadores, camponeses e estudantes se organizaram nos locais de trabalho e estudo. Não optavam pela organização de partidos, de sindicatos, ou de outras vanguardas. Apontavam soluções práticas contrárias aos entes separados das pessoas que despersonalizam as necessidades humanas. Sua organização era horizontal e não hierárquica. A falta desse controle por parte das vanguardas as fez, no princípio, sabotarem as articulações e, posteriormente, usar todas as suas forças para penetrar o seio desse método revolucionário para agir nele contra-revolucionando-o.
Desse modo, pensando em maio de 1968, nele contendo uma metodologia cotidiana e não separada, podemos dizer que também foi contra-espetacular. Porém, como todo o cotidiano é consumido pela máquina capitalista, com a radicalidade do maio de 1968 não poderia ser diferente. Mas isso se pensarmos a radicalidade como seu fim e não como prática cotidiana. Desse modo, não vejo possibilidades da radicalidade não separada da vida cotidiana ser facilmente cooptada.
A prova dessa dificuldade é haver deturpação das conquistas reais de maio de 1968 resumindo-as em ocupações de escolas, fábricas, universidades, etc., sem pensar o caminho escolhido pelas pessoas. Assumiu-se o formato de conselhos de escolas, de universidades, de fábricas não hierárquicos, horizontais, por estarem em um cotidiano onde essa horizontalidade, antes, não se apresentava. Também se percebeu na prática que essa organização horizontalizada, não hierárquica não era o fim em si.
Hoje, a metodologia da ação é diferente daquela de maio de 1968, assim como do início da Revolução Soviética (aquela ainda não Bolchevique), e da Comuna de Paris. Temos a experiência de que a ação deve ser no nosso dia-a-dia (espaços do trabalho, do estudo, da vida). Deve e apenas pode ser no dia-a-dia, pois é somente nele que essa vida, mesmo que esteja mediada por mercadorias, já apresenta alguns “escapes” possíveis enquanto resquícios da humanidade. E não podemos fingir que não vemos as possibilidades, pois elas estão em cada sabotagem, em cada crítica prática à propriedade privada, etc.
Para os que querem fugir dos animais mais usados pelo velho mundo, posso citar-lhes outros do novo mundo, mas aviso que todos devem ser pensados igualmente. Os saltos dos outros lugares também são de tigres, ou mesmo de jaguaretê ou leopardo. Todos são saltos. Para simplificar vou me restringir aos exemplos do México e da Argentina.
O sul do México arde, controversamente, desde 1994 com a formação do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e sua relação não-hierarquizada com o povo do Estado Mexicano de Chiapas. O EZLN se submete ao povo de cada vila ou cidade onde está presente e que se organiza em conselhos autônomos. Também é necessário citar o recente (pois aconteceu em 2006 e 2007) salto do povo da cidade de Oaxaca, no Estado Mexicano de Oaxaca, em que megamarchas tomaram as ruas com milhões de pessoas. Prédios públicos e privados foram ocupados, as pessoas passaram a se auto-organizar a partir de seus locais de trabalho e disso não saiu boa coisa: elas deixaram de serem mercadorias e viraram seres humanos por algum tempo que puderam enfim controlar.
Em 2001 a Argentina também ardeu. Diversas pessoas nas periferias de Buenos Aires se autogeriram contra todos: “Que se vayan TODOS” eles diziam. A esquerda oficial (partidos, sindicatos, etc.) junto com a mídia em geral traduziram o grito como: “que se vão todos que estão no governo e que outros políticos tomem seu lugar”. A periferia se reuniu em assembléias populares nas praças e nos parques, enquanto uma classe “média” se revoltou por ter seu dinheiro tomado nos bancos.
Meu esforço aqui não é o de comentar esses eventuais mil novecentos e sessenta e oitos que ocorrem cotidianamente ou ocorreram nessas citações acima, mas pretendi apontar que todos esses citados também CITAM, como o disse Benjamin, práticas revolucionárias anteriores a eles (como já disse: é necessário pleonasmos nessas ocasiões).
Pensando como Jorge Luis Borges (1899-1986), a Argentina teve seus precursores e eles foram mostrados aqui neste texto. Não desejo resumir as coisas, por isso é preciso dizer que cada evento citado possui elementos diferentes. Permanece uma teoria prática possível nesses momentos humanos.
É importante ressaltar que o contexto político daquele 2001 estava amparado por encontros ricos em humanidade ou de outra coisa que não o que temos comumente. Aqueles foram os chamados carnavais anticapitalistas que aconteceram fervorosamente sob o grito: pensar global, agir local. Seattle/1999 é mais um ponto na história de um século que revela todos esses elementos práticos de uma luta subversora das hierarquias do Estado e do Mercado.
É também necessário dizer que dentro de um fluxo de citações, existem interrupções que participam do refluxo prático do capitalismo. Muitas vezes - e após Seattle, muitas vezes mais - eles se trasvestirão de esforços de discussões que pretendem aproveitar as experiências da ordem do dia, tais como o foi com: o Fórum Social Mundial (e suas vertentes Brasileira, Mineira, etc.); os partidos e sindicatos e suas atuações vanguardistas (portanto: separadas) nos momentos citados acima, tal como desde maio de 1968; o financiamento realizado por determinadas empresas, como a Ford e outras tantas, das atividades que pretendem apontar “um outro mundo”.
A verdade é que estamos todos presos nesses emaranhados de fios que nos puxam para os mesmos lugares-comuns (e não para a realidade humana). Ao nos puxar tentam, inclusive, apropriar-se dos diversos discursos críticos de momentos como os maios de sessenta e oitos que ocorrem nas minúcias das relações mediadas por imagens (sabotagens, preguiças, críticas práticas em geral).
É necessária uma releitura das atuações e práticas sim, mas feitas no entendimento de que existe uma batalha pela sobrevivência cotidiana. Não imagino que sejam necessárias teorias e mais teorias que expliquem o funcionamento do mundo e de uma realidade que já foi desmascarada pela prática (se for preciso repetir eu repito: desmascarada pelas práticas já citadas). Também não acredito que seja necessária a criação de metodologias revolucionárias para a mudança do mundo, ou que devamos pensar “um outro mundo”, pois o mesmo já foi constituído nessas citações sem imposição de nenhuma ideologia.
Pudemos, a partir dessas experiências, ter o privilégio de escolher um lado que não é tão escolhido e é sempre criminalizado pelas esquerdas que se adentram na oficialidade do mundo capitalista: o lado a lado diário. É desse modo que a história de maio de 1968 - e outros tantos - não pode realmente ser feita de heróis, mas sim, de criminosos sociais.
Falaram que Glauber Rocha é uma merda. Mas que casseta! Isso é plágio.
A diferença entre o que disse Madureira e o que venho pensando em diversas páginas é que, contemporaneamente, essas características não apontam para o “ruim”, mas para a novidade e o comum: o que há de mais “novidadesco” nas produções. Glauber Rocha, então, seria o que ele mesmo sempre imaginou: um profeta.
Então vamos falar de Glauber Rocha.
Pena que não estamos nos Estados Unidos, onde sempre está na moda processar. Mas aqui sempre é moda dizer bobagens sem explicar. Chafurdo na lama de diversas correntes para poder ficar mais livre para repetir algumas asneiras. Tem gente que as diz sem fazer esforço algum.
Isso que aconteceu foi plágio e aqui vou compartilhar algumas idéias com os leitores provando que fui copiado sem que Madureira soubesse. Tratarei o Casseta como um precursor dessas asneiras todas que disse e aqui repetirei. Fico feliz por ser digno de ter sido plagiado e, por agora, plagiar.
Dentro dessa lógica, a minha asneira preferida é dizer que as maiores figuras intelectuais do que sobrou do ideário de mundo em devir são todas umas merdas: Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Paulo Freire, etc., só para citar brasileiros.
Não vou dizer que todos estavam errados porque não existe ideologia errada. O que existe é ideologia. Pensando especificamente em Glauber Rocha sua merda está materializada em todas as produções contemporâneas, principalmente após o Manifesto Dogma 1995, em que os cineastas badalados (não tão merdas quanto Glauber, como: Lars von Trier e Thomas Vinterberg) repetem essas filmagens mal feitas e, teoricamente, mal dirigidas fazendo-as nas coxas, como é o caso de seus filmes sem gênero como Os Idiotas ou Festa de Família.
Vou apontar algumas merdices cinematográficas de Glauber Rocha e, assim, reservo o direito de comentar em textos mais a frente algumas delas no contexto contemporâneo. São merdanças: a câmera sendo retirada do tripé e indo para o ombro, realizando a dança e o trânsito entre objetos e personagens; a quebra do estatuto da ficção através do movimento da câmera e do aparecimento dos atores em cenas se preparando para as filmagens, ou mesmo de Glauber também aparecendo em frente à câmera, tudo isso sendo incorporado ao cinema Hollywoodiano contemporâneo (tais como os Bruxas de Blair e Cloverfield); a não linearidade narrativa que, em tempos de internet e hipertextos, não é vista como "chata", mas como inovadora e aceitável. E vou parar por aqui, pois senão vão dizer que este texto é um monte de merdas desproporcionais.
Não vou ficar lendo Glauber Rocha em público por que as pessoas merecem tentar fazê-lo e tirá-lo dessa distância que os intelectuais gostam de sustentar. O cineasta baiano se esforçou por criar diversas imagens que se voltavam como espelhos das pessoas comuns, de um povo e de uma cultura não cooptada por mecanismos intelectualóides. Porém, o que se faz com o que foi criado são outros quinhentos.
Com este texto apenas procurei esclarecer o que quis dizer um precursor em sua visão. Ele abriu caminho para entendimento de uma prática glauberiana muito mais cotidianizada. Tal prática, mais do que se distanciar do dia-a-dia das pessoas, deve ser vista como próxima e possível para ela (como: os filmes feitos em favelas, aglomerados, etc.; os filmes dos e feitos pelos movimentos populares de ocupação, de ação política, etc.; e os filmes das resistências cotidianas em geral).
Desse modo, uma merda de verdade tem que ser o uso crítico que se pode fazer de um “celular de câmera” na mão e diversas idéias na cabeça. E isso todas as pessoas hoje em dia já possuem e já fazem uso cotidianamente. Eu queria ser o precursor dessa leitura de Glauber, mas como o Casseta fez primeiro, sem problemas, eu posso plagiar ele também.
UM TEXTO SUMÁRIO: A PRODUÇÃO FÍLMICA E O PROCESSO MEDIANO DE COMPOSIÇÃO
Algumas partes foram retiradas diretamente do texto dele. As outras eu tentei completar com leituras e trechos de outros textos a ponto de esquecer quando a contribuição de um começa e a do outro termina. No fundo, o que fiz foi radicalizar conforme ele mesmo propõe. Uma pessoa que pensa assim não pode se zangar com esses recortes e colagens. A vida é feita de Control C e Control V, e vou tentando me convencer.
O autor propõe uma forma de ler a indústria cultural contemporânea. Esse “modo” acaba por caber não apenas à indústria cinematográfica, para a qual ele aponta sua crítica, mas para as artes como um todo. A proposta do texto é gerar discussão e novos textos que utilizem os principais apontamentos para elaboração de outras críticas, sempre práticas, sempre cotidianas, sempre relacionando as indústrias e, portanto, o capitalismo com a vida das pessoas e os modos de resistir a ele.
Jorge escreve...
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Tenho como premissa o fim da arte (seguindo uma leitura pós-Walter Benjamin/pós-Guy Debord) na sociedade do século XX e princípio do século XXI. Os avanços da reprodutibilidade técnica formam o mundo do homem que perdeu a humanidade. Esses avanços, também, são a saída: a humanidade, então, não está perdida. Um paradoxo.
Penso o mundo da arte – que mesmo depois de morta continua existindo – como um grande cadáver. Hoje, nesse corpo, muito pouco se diferencia a análise técnica de, por exemplo, um cinema (chamado) de autor daquele (chamado) de massas vindo de Hollywood. A solidificação dessa idéia enquanto um mesmo corpo está presente na incorporação de ambos os objetos nas análises realizadas nas academias brasileiras. Todos os filmes são cinema de autor ou todos os filmes se tornaram cinema de massa?
Não perderei tempo na reflexão que aproxima ou distancia essa questão. Irei apenas iniciar uma discussão sobre o que se torna comum aos dois enquanto uma hiper assimilação que acontece contemporaneamente. Perguntas surgirão do leitor: como é possível dizer isso sem se conhecer todos os filmes já feitos? Como é possível generalizar dessa forma?
Por causa dessas perguntas, aqui se propõe não apenas uma, mas uma série de análises que não esgotarão o tema, mas que incorporarão vários elementos na medida do possível. Considerando o princípio da arte morta na sociedade capitalista contemporânea, e a reprodutibilidade técnica em ascensão quantitativa constante e mensurada desde a tese de Benjamin, irei pensar sobre alguns cadáveres em uma série de textos ou de passagens.
Com isso em mente, enquanto os vermes comem a carne dos cadáveres, tentarei trazer o serial killer para as críticas que realizarei. Assim como o sujeito (um ladrão de vidas) dessa metáfora, não sei quando serei pego. Por esse motivo, também não poderei dizer quando irei parar essa série. Também não sei onde os publicarei.
Para compreender melhor a aproximação que se dá contemporaneamente entre as duas vertentes do cinema apontado – duas faces de uma mesma indústria – vejamos a idéia trazida por Pablo Gobira do “Processo Mediano de Composição”. Abaixo, tomo a liberdade de citar um longo trecho de sua concepção preliminar:
"PRELIMINARES: PROCESSO MEDIANO DE COMPOSIÇÃO
A arte, então, não existe. Existe mercadoria. Porém, se a arte existisse não seria arte, seria um processo mediano de composição.
Este não pretende ser um manifesto. Muito menos o seu inverso: a abstenção.
Não faço parte de uma vanguarda. O que aqui se propõe é falar do que se vê todos os dias nas ruas. Portanto, aqui não há nenhuma proposta. Nada coletivo... ainda.
Eu filmo com o celular, escrevo e repasso e-mails indesejados. Como muitos (e todos o podem), atribuo autorias de spams aos meus outros. E quem não o faz? Sei ler, sei versificar, sei narrar. Burlo descuidadamente autorias através dos domínios do copyright. Plágio é o que restou.
Algumas dúvidas: Tudo isso que faço seria arte? O que faz o que eu faço ser arte? O que os outros têm que ver com o que eu faço?
Apenas uma resposta: o que faz o que os outros fazem não ser arte é a existência da possibilidade de cooptação. Os responsáveis pela estatutização das produções – o mercado e suas variações tentaculares – criam a possibilidade daquilo que possui mais valor de troca que de uso tornar-se outra coisa ainda como último fôlego. Poder participar da dinâmica mercadológica das indústrias de cultura é o que faz o processo mediano de composição ser passível de ser assimilado. O interesse nesse processo é meramente mercadológico. Mas vemos que ele já existe, não precisando do mercado para isso.
Processo: por não ser finalizado, nem mesmo quando fixado por uma crítica ou quando vendido como produto. Sabe-se, assim, que quando cooptado/assimilado deixa de agir como processo em sua beleza cotidiana, reagindo contra ela e tornando-se passível de um nível de crítica indeterminado e de nova autoridade que não a daquele indivíduo.
Mediano: por ser possível para todos e todas devido aos novos meios de reprodução técnica, uma vez que todas e todos podem utilizar processos de criação artística antes distantes de suas mãos não mais inaptas.
Composição: por ser envolvente a ponto de considerar o indivíduo e sua habilidade de compor uma obra, produto, ou marca que será inicialmente arquivada junto às inúmeras memórias de sua vida enquanto sujeito realizado na sociedade capitalista.
Dessa forma, o seu processo pode ser analisado pela crítica, mas não será um processo mediano de composição por se desvincular de seu meio genético. Antes de ser arte, será uma pré-produção mercadológica que está lá para ser consumida com todo seu valor.
Pablo Gobira (Eu escrevi, mas qualquer um poderia ter escrito em 29/06/2008)"
Há algo que sinto falta nesse diagnóstico preliminar. Talvez por ser preliminar não contenha o diagnóstico também do caráter individualista que esses processos medianos contêm. Mesmo assim, partindo desse diagnóstico preliminar da arte contemporânea, podemos imaginar a relação entre a produção do autor – esse indivíduo com o celular na mão – e o cineasta apenas como imaginária. Porém, se nos remetemos a cineastas como Glauber Rocha que já pensava com “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, temos essa apresentação acima não como diagnóstico da arte contemporânea, mas como constatação do que já foi dito há alguns bons quarenta anos. A verdade é que o acesso à reprodutibilidade técnica que hoje ocorre faz com que as pessoas possam se tornar verdadeiros “homens-banda”.
É também com a idéia de processo mediano de composição que citamos carnalmente os antepassados humanos, especialmente gregos e romanos, para os quais o artista e o artesão se aproximavam, sendo eles - quase - iguais, podendo-se pensar que a criatividade e a cópia não se distanciavam.
Inventividade, criatividade e força de vontade não são o bastante para estrelar nesse palco. O acesso às técnicas de reprodução, por exemplo, cria um cinema independente com maior circulação, mas que pode ser incorporado enquanto processo mediano de composição (mesmo que seus filmes estejam acabados, pois a idéia de processo não significa apenas “inacabamento” no sentido de realização cinematográfica ou outra qualquer, mas a potencialidade de incorporação enquanto mercadoria).
A metáfora do palco, assim como aquela da engrenagem da fábrica, não vale mais. A do espetáculo, mostrada em 1967 por Guy Debord ainda está dentro do prazo de validade. O capitalismo ainda não a assimilou – da forma que ela é de fato – enquanto potencial-produto. O que se conseguiu foi entortar a teoria crítica de Debord resumindo-a a metáfora do espetáculo (essa, como a do palco, já nasce morta, sai do prazo de validade por ter sido superada).
Com a metáfora de Debord – que apenas pode ser usada enquanto crítica prática ao capitalismo e não como diagnóstico dele – podemos dizer que conseguimos enxergar que não existem pessoas com câmeras na mão ou idéias na cabeça, mas pessoas que têm suas relações mediadas por mercadorias que, hoje, estão em seu mais alto grau: o imagético.
Nesse contexto, realmente importa à indústria cultural se temos separação entre uma alta cultura e “cinema de autor” ou baixa cultura e “cinema de massas”? O que importa é a sua capacidade de diversificação. Temos que ter mercado para os dois tipos de cinema, e temos que nos sofisticar a ponto da nossa mercadoria se hibridizar, podendo conter elementos para um e para outro nicho. Na sociedade do consumo, muitas vezes, aquele que está em um nicho pode se ver temporariamente em outro por algum motivo, tornando-se consumidor das mercadorias que, não possuindo valor de uso, são imagens que circulam livremente pelas cidades, salas de cinema e internet.
Tendo em vista a hibridização necessária para o capitalismo, o produto “arte” se configura como mercadoria quando ultrapassa o seu processo mediano de composição. Processo esse individual e também individualista, que apenas existe por que não alcançou o nível de circulação total da mercadoria enquanto imagem (por uma questão de tempo). Desse modo, ainda há a possibilidade de ser crítico ao mercado e a sua situação potencial (quando em recuperação) como mercadoria do futuro. Tudo é possível enquanto não é mercadoria, mas logo o é. Essa é a positividade que existe no processo mediano de composição que conduz o processo artístico à mercadoria.
O processo mediano de composição representa a democratização (no pior sentido da palavra) da reprodutibilidade técnica e da circulação, assim como a socialização das produções de diversos campos artísticos, tais como aquele que dividiu o cinema em de “autor” e de “massas”, apontando para sua aproximação e/ou unificação gradativa.
***
Resolvi parar aqui com a voz de Jorge para não confundir o leitor do modo que eu fiquei confuso. Proporei ao autor que ambos publiquemos algumas discussões acerca de filmes específicos ou técnicas que podemos apontar. Alguns exemplos podem ser citados: a quantitativa presença da câmera em movimento em filmes; a regressão na qualidade da filmagem; o hipertexto e outras fragmentações narrativas; o jogo entre a realidade e a ficção.
Havendo resistência de Jorge na não publicação, escreverei esses textos tentando reproduzir a sua escrita. Se tudo der errado, o leitor nada perderá, apenas lerá alguns aportes teórico-práticos a mais de um mundo de teorias sem práticas.
Ressalto que o leitor já ganhou com a prática que Jorge apontou: a possibilidade da negação em um ambiente capitalista (um ambiente da positividade). Um dos principais meios para realizar a negação é o acesso à Internet que, paradoxalmente, movimenta o mercado sob a forma monstruosa do espetáculo. Possivelmente, é a arma mais forte do espetáculo. Mesmo assim, essa arma – como todas as armas – conserva o potencial de “explodir a culatra” através da expropriação de seu uso, tal como ocorreu entre 1999 e 2001 em eventos chamados: Dias Internacionais de Luta Anti-Capitalistas, Dias de Ação Global Contra o Capitalismo ou ainda Carnavais Anti-Capitalistas. Todos convocados sem partidos, sindicatos ou demais órgãos vanguardistas. O meio de divulgação principal foi a Internet.
Esse potencial apontado está longe do otimismo de autores como Pierre Lévy que integram suas idéias à lógica do capitalismo. As idéias aqui expostas se unem a uma possibilidade concreta de utilizar a Internet enquanto um dos instrumentos inseridos nas metodologias de resistências cotidianas, humanas, que penetram em diversos espaços, interferindo na constituição e no surgimento de processos medianos de composição alcançando, quando bem sucedido, uma consciência de coletividade, de classe, de humanidade.
Porém, nada disso sei sozinho. Veremos se conseguimos continuar essa discussão daqui para frente em outros terrenos, em outros textos, em novas incursões.
quarta-feira, setembro 12, 2007
A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO e seus 40 anos
Sim, é inegável a importância e a atualidade desse texto publicado pela primeira vez em 1967, o que nos deixa com a obrigação de comentar seu aniversário. Também é inegável a sua importância para as formulações que preparam o maio de 1968 francês (em 2008 também se comemora 40 anos desse momento político) que influencia, influenciou e continuará influenciando grupos e movimentos sociais populares os mais diversos: como inspiração e como luta prática.
O livro, escrito por Guy Debord (1931-1994), por vezes é considerado o mais importante do século XX no contexto das lutas totais contra o Estado e contra o Mercado. Sua base está nas relações entre a luta de classe e a alienação que geram um estágio elevado do capitalismo conhecido como “sociedade do espetáculo”, referência à ligação tecida pelo autor entre imagem e mercadoria.
A escassez de estudos acadêmicos sobre o autor – pelo menos ainda – revela o interesse maior por seus escritos por parte daqueles que realizam uma crítica às ideologias de toda estirpe. Para Debord, todas ideologias se aproximam, e as mais distantes são as mais próximas irmãs.
O livro revela essas idéias nos capítulos: I) A separação consumada; II) A mercadoria como espetáculo; III) Unidade e divisão na aparência; IV) O proletariado como sujeito e como representação; V) Tempo e História; VI) O tempo espetacular; VII) A ordenação do território; VIII) A negação e o consumo na cultura; IX) A ideologia materializada.
Nesse contexto de comemoração dos seus 40 anos é uma obrigação citar algumas edições em português. Nessa língua nós temos três a comentar. A primeira que se tem notícia é a edição portuguesa, revisada pelo próprio Guy Debord, e lançada em 1972. A primeira edição brasileira é lançada em 1997, mas gostaria de me ater na segunda edição que teve a tradução finalizada em 2002 e lançada em abril de 2003 pelo Coletivo Acrático Proposta (CAP).
Essa edição se propõe restaurar – como o disse João Emiliano Aquino em suas “Anotações sobre a Sociedade do Espetáculo” que a abre – a proposta de discussão prática do texto de Debord, e não meramente servir como mais um produto-livro no mercado capitalista. Para isso ela foi considerada uma “edição pirata”, pois leva o texto para a periferia do discurso, alcançando o uso das teses de modo pleno e não meramente parcial.
A edição se propunha fotocopiável em qualquer esquina. A proposta feita aos leitores, coletivos, etc., era “retirar os grampos e tirar cópias”. Para isso, o máximo do papel foi aproveitado, desrespeitando os padrões de editoração, reduzindo o custo da cópia do livro.
Desse modo, resgata-se uma característica de difícil assimilação pela academia, pois a mesma não vê com bons olhos a inclinação do texto de Debord para a teoria prática. Essa inclinação revela a necessidade que o livro tem de ser um pretexto à crítica e reflexão cotidiana. Deve ser atualizado com base nos locais em que as pessoas – decididas em destruir as relações mediadas por imagens – o utilizam.
Algumas áreas, como a comunicação, por exemplo, absorveram parcialmente algumas idéias do livro e sua crítica à mídia, contrariando a proposta e integridade da própria crítica. Hoje, apenas pode ser citado um autor que conseguiu extrair de Guy Debord a íntegra de suas teses (até onde é possível realizar tal resgate dentro de um meio acadêmico). A tese de 2005 intitula-se Reificação e linguagem em André Breton e Guy Debord, de João Emiliano Fortaleza de Aquino. Em 2006 essa tese gerou um livro, Reificação e linguagem em Guy Debord, que torna público parte desse trabalho.
Na França, Debord teve recentemente sua obra completa publicada. Na internet pode ser encontrado muito material do autor, assim como sobre ele. Muitos dos textos estão em francês, mas em português também podem ser encontrados os textos fundamentais de seu pensamento que nunca foi separado da ação.
Por esse e outros motivos A Sociedade do Espetáculo não apenas merece ser lido, como também deve ser discutido e visto (pois o livro tem sua versão para Cinema do Guy Debord cineasta).
Ressalto que não usei parte alguma do texto debordiano para que vocês possam conhecê-lo na íntegra em suas versões disponíveis, vejam nos sites abaixo e, para qualquer outra conversa sobre, assim como se quiserem conhecer a edição pirata, entrem em contato comigo.
http://www.geocities.com/jneves_2000/debord.htm
http://www.geocities.com/projetoperiferia4/se.htm
http://www.geocities.com/projetoperiferia4/sefilme.htm
http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/comentariosociespetaculo.pdf
http://www.rizoma.net/interna.php?id=133&secao=potlatch
http://www2.cddc.vt.edu/mirrors/SI/debord.films/index.htm
http://www.aldeianago.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=11&Itemid=76
http://www.geocities.com/projetoperiferia4/introbra.htm
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Um Seminário pela Igualdade*
É nesse sentido que no dia 22 de setembro de 2006, das 18:30 horas às 21:30 realizou-se no Espaço Marista Estação Cidadania (Rua Padre Marinho, 455 (Pilotis), Santa Efigênia), organizado pelo Centro Marista de Educação e Cidadania (CEMEC), o I Seminário Marista sobre Igualdade Racial (I SEMIR). O evento tinha em vista não apenas a situação de desigualdade social e racial existente no Brasil desde a sua Fundação (ver: A Fundação do Brasil - testemunhos 1500-1700, de Darcy Ribeiro e Carlos de Araujo Moreira Neto, Petrópolis, Editora Vozes, 1993), mas também as contemporâneas manifestações dentro do espaço político nacional em que a deputada Nice Lobão e o senador Paulo Paim propõem projetos de lei que instituem cotas sociais e raciais (PL 73/1999), assim como o Estatuto da Igualdade Racial (PL 3.198/2000) respectivamente.
Junto a essas iniciativas agrega-se a recente polêmica do lançamento de dois manifestos, um a favor e outro contrário à Lei de Cotas e ao Estatuto da Igualdade Racial, ambos assinados por iminentes intelectuais do país presentes em diversos setores culturais.
Com esse histórico em mãos, decidiu-se reunir em Belo Horizonte diversos públicos, como os colaboradores e técnicos da Instituição Marista, estudantes e professores de pré-vestibulares comunitários da Região Metropolitana de Belo Horizonte (MSU, Educafro e Rede de Pré-Vestibulares Comunitários Marista), assim como instituições diversas, ONG’s, sociedade civil e comunidade em geral para assistir e interagir no debate com uma mesa formada por profissionais ligados à Educação e, de algum modo, enraizados na cultura e periferia da Região Metropolitana de Belo Horizonte, assim como em Instituições de Ensino Superior da capital mineira.
Cada debatedor teve trinta minutos para expor seu ponto de vista acerca da questão da Igualdade Racial, assim como a questão das Cotas Raciais havendo réplicas dos componentes da mesa e, posteriormente, a palavra foi cedida para manifestações do público presente. O debate não se propunha como arena de embate para a vitória de um dos lados, mas todos compreenderam que o importante é trazer à tona a discussão em todos os âmbitos da sociedade, como forma de combater qualquer discriminação que prejudique o ser humano e atrapalhe o seu desenvolvimento social, econômico, e emocional. Por esse motivo, desde o princípio, o Centro Marista de Educação e Cidadania se propôs a realizar não apenas um (o primeiro), mas uma série de Seminários sobre a Igualdade Racial como forma de contribuir para esse necessário debate.
Nestas páginas do Cometa, o leitor poderá encontrar duas opiniões dos debatedores presentes no SEMIR, uma a favor e outra contra o Estatuto da Igualdade Racial e as Cotas Raciais.
O pertencimento racial tem importância significativa na estruturação da pobreza e das desigualdades sócio, econômicas e culturais no Brasil. O Racismo à Brasileira decorre, entre outros motivos, de um modelo capitalista fundado sobre bases escravagistas, que promoveu, e (segue alimentando), intensa desigualdade sócio-econômica entre pessoas brancas e pardas e negras. Temos que reconhecer que essa demanda social existe.
Vemos em nossa realidade cotidiana e também a partir de estudos diversificados (pesquisas acadêmicas, estudos governamentais e de instituições como a ONU, UNICEF, entre outros organismos internacionais) a veracidade da denúncia do movimento negro de que a integração da população negra e seus descendentes na sociedade brasileira, se fez através de políticas de estado e legislação de orientações explicitamente raciais[2], processo que levou esse segmento populacional a ocupar um lugar subalterno na organização sócio-econômica e cultural do Brasil.
A III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Xenofobia e as Intolerâncias Correlatas, realizada no ano de 2000 em Durban – África do Sul -, demonstrou a importância de se discutir, debater e propor ações contra o racismo e a discriminação racial no Brasil. Se, na época, a proposição contemplava um debate quase exclusivo do Movimento Negro, a partir da conferência, da qual o Brasil tornou-se signatário, deu-se a ampliação da discussão para o conjunto da sociedade brasileira e da comunidade internacional. Desde então, construir e buscar alternativas que apontem para a eliminação de toda e qualquer forma de racismo e discriminação é uma tarefa para os militantes do movimento negro, entidades, governos daqueles que compreendem que reconhecer o racismo e suas nefastas conseqüências e não buscar sua eliminação é o mesmo que continuar a praticá-lo por omissão.
[1] Mestrado em Educação no Programa de inclusão Sociedade e Cultura, onde desenvolve uma pesquisa sobre a construção da identidade de jovens negros e negras no contexto das relações raciais no Brasil; tem atuado no Programa Conexões de Saberes na UFMG - programa de ação afirmativa voltada para a permanência bem sucedida de estudantes auto declarados negros e pardos de origem popular na instituição; atuou com consultoria e assessoria Educacional, com enfase na formação continuada de professores da educação básica, na elaboração e acompanhamento de projetos coletivos de trabalho em escolas da rede pública de Minas Gerais. Atualmente tem ministrado palestras em Universidades e participado de debates com Movimentos Sociais, Universitários, Organizações não-governamentais, pré-vestibulares comunitários, e comunidade de modo geral. Ativista Negro, tendo sido dirigente nacional da Coordenação Nacional de Entidades Negras - CONEN e ex-diretor da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra.
[2] Leis e artigos de objetivo explicitamente e restritório para negros dificultou o acesso a terras, educação, saúde, saneamento, política, expressões culturais e religiosas. Para saber mais, ver leis de terras, crimes de vadiagem, história da educação dos escravos, proibições a escravos e ex-escravos, etc.
Encontra-se em tramitação no Congresso Nacional o “Estatuto da Igualdade Racial”, cujo Substitutivo mais recente (n. 213, de 2003), se põe “para combater a discriminação racial e as desigualdades estruturais e de gênero que atingem os afro-brasileiros, incluindo a dimensão racial nas políticas públicas e outras ações desenvolvidas pelo Estado”.
A apresentação de tal proposta sugere que a cidadania brasileira está diante de momento de grave decisão. Vê-se no texto que há envolvimento das várias dimensões da vida, mas principalmente do Estado nos seus diversos setores, esferas e níveis, tal como revelam os nomes de seus títulos (sempre referidos aos “direitos”) e capítulos (com seus dispositivos operacionais, como “fundos” e “conselhos de promoção da igualdade racial”, entre outros). Em debate tão polêmico, apontamos inicialmente dois problemas no projeto de lei.
Primeiro, há no texto uma exclusividade da questão “racial” brasileira no âmbito da “afro-brasilidade”, o que de início já sugere que a complexa presença indígena no Brasil, por exemplo, estaria em outro campo sociopolítico: será o da etnia? Para quem reconhece ou ao menos suspeita que descende também de índios (mesmo com a negação dos modos de vida e da memória), pode-se pensar em traços comuns das existência-resistência negra e indígena no Brasil. Porém, parece vigorar um biombo ideológico como se a “indianidade” brasileira estivesse confinada nos territórios já delimitados nas dolorosas lutas e negociação com o Estado, muitos deles ainda por serem alcançados na letra e de fato. Na “afrobrasilidade”, só os quilombolas estariam assemelhados à “questão indígena”.
Segundo, a maior parte das falas de ativistas da afro-brasilidade recorre a estatísticas quanto à desigualdade no acesso e permanência à educação, saúde, habitação e outros aspectos da vida “moderna”. Também denunciam (e por vezes procuram analisar) a discriminação, o preconceito e a violência perpetrados por outrem, em especial o Estado no âmbito da presença de suas polícias e ausência dos benefícios citados. A tais argumentações falta uma geoistória da formação social brasileira que explique, por exemplo, que sua fundação e desenvolvimento instituiu uma forma específica (e profunda) de dominação por meio da tutela estatal sobre o outro.
Se reconhecemos que tal traço reproduz a desigualdade, é preciso refletir quanto às implicações de uma lei que confere ao Estado a definição dos termos das relações sociais, mesmo a partir da pretensa autonomia da “autoclassificação” e da “promoção da igualdade racial” (ambas são alguma conquista no vasto e denso problema “racial” no Brasil). Falta democratizar o debate quanto ao conceito de “raça”, inventado de forma profunda principalmente em formações sociais que, como a nossa, passaram pela escravatura. Se já aparecem explicações confiáveis do ponto de vista biológico do porquê não existirem “raças” entre os seres humanos, tampouco se deve desprezar que a força ideológica do racismo orienta muitas práticas presentes no Brasil.
Nossa proposta de abertura do debate parte do amplo fluxo realizado com a captura de gente negra em grande parte da África, condição para a instituição baseada no trabalho para o outro (alienado). A condição de superação da desigualdade (mesmo que por hora necessariamente adjetivada como “racial”) passa pelo diálogo com quem está subalternizado, mas que ainda representa positivamente a dominação, ao buscar as históricas formas de controle social por meio do Estado, e o mesmo empenho de “realização” do humano por meio do mercado. No Brasil, todo cuidado com a letra das leis é pouco.
[1] Professor da UFMG, Estudante de Pós-Graduação em Geografia (Doutorado) da UFF, Comissão de Assuntos Urbanos e Meio Ambiente da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB – Seção Local de Belo Horizonte, Comissão de Cultura do Comitê Mineiro do Fórum Social Mundial.
O “poeta-interior”: a pré-lição de Josué*
Propomos, assim, ler um pouco a dinâmica das coisas que se dizem poéticas à luz do dia-a-dia e vice-versa. As pessoas já acham estranho a proposta do “fim da poesia” quando explicada minuciosamente, enquanto um novo começo. O melhor método encontrado acaba sendo fazer o contrário: abordar o “fim da poesia” com a introdução do dia-a-dia em seu meio e, assim, caracterizar o seu “dissolvimento” ao se assemelhar à um cotidiano antes, aparentemente, órfão dela. Ao final, qualquer clichê poético torna-se cotidiano. E, no mínimo, qualquer cotidiano é um clichê poético.
A viagem para Presidente Olegário, ou P.O. para os íntimos moradores, é longa. Dura uma noite de quem parte da Belo Horizonte. Chega-se em Patos de Minas e ruma-se para PO. Cidade pequena localizada em um plano sobre uma montanha. Também com seus montinhos é simpática, acolhedora, poética. Para uns que ficam pode ser uma prisão. Lugar onde todos sabem e dão notícias de todos como as curtas cidades mineiras são. As imagens (fotos, descrições, etc.) do lugar apontam uma vontade para o crescimento.
Uma vez que a visita à cidade tinha como motivo o lançamento do primeiro livro do poeta, imaginou-se como isso seria possível dentro de uma “Festa da Produção” local. A imagem se construía com animais sendo submetidos em rodeios estúpidos, calças “tora-bago”, “maria-pretêras” e tudo o mais que os enfeitam. Como é possível acontecer um lançamento de poesia ali? E aconteceu. O dia do lançamento foi um dia de festa no cotidiano daquelas pessoas. Com todo tipo de pessoas, aquele cotidiano se extravasou com os poemas de Josué e o seu movimento poético. O dia-a-dia no poema. A sua poesia retirada do dia-a-dia. A poesia se dissolve e foi dissolvida.
Não especificamente arquitetado, o poeta contemporâneo revela seu texto e seu conteúdo em um jorro de explícito desejo de vida e não de se separar dela. Ele está nela. Seus poemas em outras línguas dissolvem a vontade de se aproximar das várias realidades lingüísticas e não de separá-las dos leitores de um português apenas. O poeta contemporâneo é também um “poeta interior” que se diz em seu poema mais do que no dia-a-dia se diz. É ali, no cotidiano e no poema, que ele se vende mais. O poeta quer se libertar, mas está ali, está preso. Sua poesia pode demonstrar isso claramente.
Nesse exemplo, podemos extrair que o poeta dito “da capital” deve aproveitar melhor o espaço e não apenas se lançar nele com um livro, sua proposta. O poeta de uma Belo Horizonte miúda, onde todos se conhecem, deve se conhecer e conhecer aos outros poetas, assim como o faz aquele do interior que se volta ávido por uma BH de poesia fragmentada.
O poeta de Belo Horizonte deve dizer aos outros o seu dia. Ser o dia. Essa é a pré-lição natural de Josué. Esse é o primeiro modelo do fim de uma poesia separada do dia. Simplicidade replicada do dia. O “poeta interior” manifesta os clichês junto às rimas pobres e seus enfeites possíveis. Artifícios corroboram a necessidade da forma ou a falta dela no poema. A dedicatória constante é sinal de um link entre a poesia e o mundo do poeta. O livro lançado, repleto de poemas com esses traços, é reflexo da festa que ali acontecia. Fotografou-se a fotografia. A responsabilidade do poeta contemporâneo cresceu, fica maior a cada segundo. Ele segura a arma com a qual está se matando. Ele a lê e não mais a decora. Ele a vive e não mais a provoca. Ele não esnoba com a poesia. Ela é esnobe. A poesia deve ser realmente de todos e todas.
Tudo isso para dizer que os poetas de Belo Horizonte devem se ver. Também devem ver o seu interior. Ver o interior de Minas e seus poetas talvez mais do que o inverso como vem acontecendo. Isso é dito, pois os do interior conseguem ver mais o dia e a noite em sua poesia do que o contrário.
Pelo que se lê atualmente nas preocupações dos poetas com as formas visuais do poema, com o lúdico-poético, e com a poesia acima do poema, pode-se dizer que o peso da poesia que se pratica hoje, no interior e nas capitais, está na capacidade de se tecer provocações em sua sintaxe carregada de conectivos. Pensa-se nesses enquanto gramaticais ou fazendo esse papel.
A partir desses valores contemporâneos, pode-se dizer que Josué ilustra essa poesia muito bem.
segunda-feira, novembro 27, 2006
Essa notícia você não vê na TV: De Oaxaca para o Mundo
Não apenas pela internet, mas quase sentindo no coração, surge a comuna de Oaxaca, no México. Não é mentira, mas pode tornar-se se comitês não forem criados.
Esta não é uma notícia que se vê na TeVê.
Dessa forma, é importante perceber algumas fontes com muita atenção: 1) www.comiteoaxacafortal.blogspot.com e 2) http://www.oaxacavive.revolt.org. Tendo acesso à esses dois endereços você estará apto a ler o mundo de fato.

E como uma imagem vale mais que mil palavras, e meu objetivo é mesmo a desconexão das idéias, veja ao lado uma desideologizada imagem da Sétima Megamarcha com pessoas como quaisquer outras, mais conhecidos como "nós".
Viu? Ainda há vida inteligente no planeta. Pessoas que não seguem os bolchevismos de qualquer espécie, ou outro "ismo" qualquer, e que são bem capazes de pensar por si próprias, pois o trabalho - e a hierarquia nele e fora dele - vai além das palavras.
O grito liberta! E ao saber que ler o mundo é o grande mistério da vida, posso felizmente dizer que descobri um dos caminhos dessa mesma vida sem mistérios e de confortos básicos. Seguir com as marchas, pequenas, médias, grandes e ainda as "megas", é o melhor a se fazer no gritar e mudar as coisas do mundo. Longe do ar condicionado que apenas condiciona alguns poucos na exclusão de muitos condicionados em outros moldes, modos e modelos.
O que se diz é o que se faz. Pense nos objetivos dessa desconexão.
quarta-feira, setembro 13, 2006
Profecias diárias em contraponto

O outro olhar é ainda mais denso. A bela vista dos Profetas do Aleijadinho pelas costas, pela lateral da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas (MG). O olhar lateral rememora aqueles históricos moradores que, muito provavelmente, não assistiam a missa, mas assistiam as outras pessoas que dela saia
m. Seus olhares curiosos fingiam uma "não curiosidade". Sua aparência simulada a descoberta de algo novo no outro. Antes, filhos de uma elite que faziam footing em domingos religiosos. O olhar não era tão displicente quanto poderia parecer.Mais um olhar se soma aos outros no domingo pós 7 de setembro deste ano. A imagem revelada é a de um ato que cita a noção histórica de barricada, muito difundida e assimilada pelo movimento operário europeu, principalmente aquele de orientação anarquista. A descoberta da barricada lembra resistência. O fogo lembra destruição, mas também renascimento. A reinvidicação desse dia, ali na Br040 lotada de famílias voltando de seu feriado prolongado era o esgoto prometido pela Prefeitura local sob a imagem da COPASA. O que restou foi fumaça e a vitória conquistada pela ação empreendida. No meu olhar a ação já foi o bastante.

Da inércia até a ação dessas três imagens vemos o movimento de um olhar que tece a realidade de um discurso. Podendo ser aparentemente estático, as imagens se moldam com os comentários atingindo aquele que lê de algum modo. Superficialmente ou profundamente, a reflexão da leitura e seu consequente entendimento revela as posições a partir da posição exposta. A relação é crítica em vários sentidos, porém é inegável que tudo se deve ao acionamento dado pelo olhar.
segunda-feira, setembro 11, 2006
Dos olhos, podem-se extrair mais do que lágrimas. O gosto que ficará, fica ou estará além da escrita será mostrado. Relatos serão feitos, vozes serão reproduzidas. Ruídos terão lugar.
As pernas da centopéia, chilopoda, são expostas ao mesmo tempo que escondidas. O texto não diz tudo. Algo se esconde e se revela. O dia torna-se visível a olho nu na mesma medida em que nada se vê. As imagens, a partir de agora, significarão mais do que o sopro de vontade a ser significada.
Por isso, esteja a vontade e seja bem-vindo/a a esse mundo. A vida começou.